Ontem à noite, durante o XLIX Super Bowl, a Anheuser-Busch InBev lançou um comercial polêmico, de um dos seus rótulos, a Budweiser (uma das cervejas Standard Adjunct Lager mais consumidas dos EUA). No comercial de 60 segundos (que custou à empresa singelos U$ 9.000.000,00), é possível ver diversos ataques às cervejas artesanais (craft beers) e aos consumidores das mesmas. Obviamente, depois da circulação deste comercial, a cólera tomou o meio cervejeiro. Por mais engraçado que isso possa parecer, o público brasileiro se mostrou demasiadamente ofendido com o comercial. Opiniões divergentes surgiram. E eu vim aqui dar a minha. Não ficarei em cima do muro, pois há muito tempo tenho uma opinião formada sobre este assunto. Para início de conversa, segue abaixo o vídeo para quem ainda não o viu(caso não consigam ver: aqui está o link direto para o youtube: http://goo.gl/Eg2Xq7):
Pois bem. No comercial, a Budweiser se orgulha em ser uma Macro cerveja. Algum problema? Não vejo. Inclusive já escrevi aqui que acredito veementemente que cada cerveja exerce uma função no mundo. Cabe a você fazer suas escolhas. O problema é que, atualmente, "micro" virou sinônimo de cerveja excelente, e "macro", veja você, de porcaria (a.k.a American Crap). E, convenhamos: para quem realmente estuda este nicho, sabemos que essa é uma meia-verdade muito mal elaborada e espalhada por aí. Uma microcervejaria não é, automaticamente, excelente; igualmente, uma cerveja de um grande conglomerado não é, por tabela, ruim. Isso, inclusive, desmerece e desrespeita muitos profissionais com currículos ilibados que trabalham naquele meio - às vezes com formação, experiência e competência maiores que muitos microcervejeiros (o que eu provei de cerveja artesanal nova ruim no ano de 2014 não cabe aqui em linhas). Portanto, pense duas vezes antes de atacar irresponsavelmente uma marca.
Em seguida, o comercial enfatiza que a Budweiser não foi feita para ser mimada/bajulada/paparicada (fussed over), onde aparece a imagem de um homem barbudo, com bigodes pontudos e óculos "analisando" uma cerveja escura dentro de um snifter - para deixar claro que não é uma Bud. Novamente: algum problema nisso? Realmente, a Budweiser não é feita para ser apreciada; é para ser tomada, geladíssima, à beira de uma bela piscina. Se você for analisá-la, vai se incomodar com níveis consideráveis de Diacetil.
Em outro ponto do comercial, aparecem três amigos com uma tábua de samplers (pequenas porções de várias cervejas de um Brewpub, onde a pessoa pode experimentar uma quantidade maior de rótulos, pois as porções geralmente ficam em torno de 5oz) claramente estereotipados, com um ar bastante hipster e beerchato, indagando que a Bud não foi feita para ser dissecada. Pelo menos eu não tenho vontade nenhuma de analisar sensorialmente uma Budweiser - a não ser que eu seja forçado. É um ponto bem retórico feito, unica e exclusivamente para irritar os malas da cerveja, os quais não sabem interpretar uma situação inusitada.
Adiante, pode-se ler "As pessoas que bebem a nossa cerveja são pessoas que gostam de beber cerveja fabricada do jeito difícil" Eu sinceramente não entendi esta parte - se é feita alusão às Lagers, que demandam maiores cuidados na sua fabricação, por serem mais suscetíveis à defeitos aparentes ou outra coisa parecida. Enfim, ponto pro beerchato.
Agora vem a melhor parte: Deixem eles tomarem a Pumpkin Peach Ale deles - a frase vem acompanhada de uma imagem com uns 15 taps diferentes. Recentemente, a Anheuser-Busch InBev comprou uma cervejaria chamada Elysian Brewing (de Seattle), a qual possui, pasmem uma Pumpkin Peach Ale chamada de "Gourdia on my Mind". Olha só, duas propagandas em uma só: para o tiozão que bebe Bud, e pro BeerEvangelhista que, naquele momento, urrava de raiva do comercial. Genial. Sem contar que, atualmente, a gigante do mercado conta com muitas cervejas de excelência na sua carta, como Leffe, Hoegaarden, Franziskaner, Gosse Island, etc.
Balanço final da propaganda: atingiu o seu objetivo, pois fora veiculado no momento em que milhões de pessoas consumidoras do produto estavam de olho. E, outrossim, teve um efeito colateral: falou para o mundo que existem outros tipos de cerveja (inclusive, aparecem imagens de muitas outras cervejas). Um espectador mais atento percebe que existe algo além da Budweiser - ainda que esta seja a protagonista do comercial. E, para fazer uma propaganda, de certa forma apelativa, significa que as outras cervejas pequenas, estão incomodando. É tudo uma questão de interpretação daquele que recebe a mensagem. Pra ficar com raiva dessa propaganda, é preciso muito esforço - e muita chatice.
Pra finalizar, um fato curioso: quando a coisa acontece do lado oposto, diz-se que a propaganda é despojada, corajosa e autêntica. Lembro de ter visto, há muito tempo, essa propaganda da BrewDog:
Eu achei engraçadíssima. Já pensou se o tiozão, que só bebe, como chamam os malas da cerveja, American Crap ou Suco de Milho, viesse pra internet cheio de mimimi, dizendo que esta propaganda é um ultraje ao bebedor tradicional de cerveja; que os novos bebedores são esnobes e prepotentes? Por que a alfinetada pode partir numa direção, mas quando rebatida, gera todo esse alvoroço? Pois é. Se você ficou indignado com a propaganda da Budweiser, parabéns: você é um mala cervejeiro, do tipo que fala "Ai Pi Êi" no boteco. Uma pessoa que contribui para deixar o universo da Zitologia mais chato.
*Neste post não estão inclusos as razões econômicas para se ter ódio de grandes empresas com a AmBev; as tributações desproporcionais que muitas vezes afundam microcervejarias no Brasil. Falei apenas do produto. Caso contrário, a discussão seria outra.

Muito bem falado! Apesar que só vi o comercial agora!! Hehhehe
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