Beber cerveja é muito bom. Estudar cerveja? Melhor ainda, pois requer, além de enorme base teórica, muita prática. E imagino que você compreenda como essa prática é boa - gole após gole. Claro que, em algum momento, todos se veem apenas como meros entusiastas do assunto e, quanto mais gente parecida com você, mais acolhido você se sentirá. E, em determinado momento, "pôr a cerveja em prática" é praticamente uma obrigação na vida do entusiasta. Talvez (ou quase certo que) o que eu vá dizer a seguir não agrade a muita gente; talvez desperte a raiva de alguns; talvez eu arranque alguns risos de outros. Porém, o que vem a seguir será dito com a mais pura sinceridade: um ponto de vista de quem vê o universo da cerveja de uma forma menos romântica e lírica que os demais.
Primeiramente preciso declarar que me inspirei profundamente num texto visto na página pessoal da Carolina Oda, excelentíssima profissional do meio das bebidas (você pode acessar o link aqui: http://goo.gl/mUwwgy). Digo isso pois ela conseguiu expressar em poucas palavras toda a angústia de quem deveras trabalha com cervejas (ou qualquer outra bebida) no dia a dia e, em determinado momento, se vê rodeado de inúmeras pessoas que adquiriram um diploma de Sommelier por puro hobby - mas, na verdade, têm outra profissão no cotidiano. Não é a função de sommelier que lhe dá o sustento. Isso acaba maldizendo uma categoria inteira de profissionais que se esforçam cada dia mais para transmitir o conhecimento aos outros. Ainda que eu não tenha o dom da oratória, sempre tento passar para os funcionários do Black Dog as informações sobre cerveja do modo mais fidedigno possível para que eu me sinta confortável para me afastar e deixá-los fazer o seu trabalho. Muitas vezes, mesmo estando no local - quando um cliente pede alguma dica para as moças do balcão - eu não me interfiro; somente o faço quando a própria pessoa não se sente confiante o suficiente para repassar a informação. Mas, ao observar isso, fico feliz. Ver alguém andar com as próprias pernas, a partir do que você incentiva, não tem preço.
Você estudou, você se formou. A sua vida gira em torno da cerveja. Pelo menos eu tento degustar o maior número possível de rótulos para sempre poder repassar a informação necessária ao cliente. É importantíssimo dominar as cervejas existentes no mercado, pois, se o cliente não estiver satisfeito com o rótulo X, você tem que imediatamente pensar num plano B e recorrer à sua biblioteca mental num tempo suficiente que você não fique em silêncio olhando com cara de besta para a pessoa que está na sua frente. Então isso significa que, 100% do tempo eu irei tomar cerveja? NÃO! Eu também gosto de coca-cola, de milkshake, às vezes de suco e gosto muito, muito mesmo de água. Por mais que, determinada casa que venda hambúrguer, tenha 30 taps de cerejas, eu quero, e é meu direito, me deleitar com a combinação burguer + milkshake de chocolate. Depois de comer, vou em busca desses 30 taps. Uma coisa de cada vez. Não fico buscando harmonização no PF da esquina pra postar no Instagram. É o primeiro problema gerado pelas "fábricas de sommeliers"
Outro enorme problema: análise sensorial virtual. Meu amigo, do que adianta falar numa foto do instagram/facebook que a cerveja é âmbar ou ocre, que tem aroma de grama molhada num final de tarde chuvoso, de pimenta-da-jamaica, de anis-estrelado, se o outro lado não pode, de forma alguma, sentir a sua descrição (com exceção da cor)? O que vai mudar na vida da pessoa você dizer que a cerveja fez o famoso colarinho belga (erradamente traduzido do Brussels Lace). Aí vai o fulano, agora sommelier de cerveja, fala até o lote da saca do malte utilizado na receita, utiliza-se da Flor do Lácio como se fosse apenas sua - não se importando com quem recebe a mensagem pois, o que importa é a descrição impecável do novo sommelier do mercado. Veja bem, em hipótese alguma estou reclamando de "concorrência" ou da quantidade de profissionais emergentes; muito menos estou contra os colegas de profissão. O problema, de fato, é paira justamente nesta última categoria: profissionais. Como fora citado no texto da Carolina, se você já é um profissional e optou por fazer um curso de sommelier a fim de ostentar o título, não se apresente por aí como um Beer Sommelier. Fica feio. Você, no máximo, sabe descrever muito bem uma cerveja. Alías, existem redes sociais direcionadas para isso: procure o Untappd. É bem divertido. Dá até pra fazer amigos.
Sabe quando a gente falava dos malas do vinho? O enochato? Pois é, meu camarada, essa onda chegou na cerveja. E chegou com tudo. Experimente por aí falar numa rodinha cervejeira que a sua IPA está muito amarga. Creio que, em cerca de 1,5 segundos virá uma voz do além: É lupulada! Que cerveja doce! "Não, não, amigo! O correto é maltada." E a palavra campeã na boca do hopmala? A-D-S-T-R-I-N-G-E-N-T-E. Travoso? Errado! Parece aquela fruta… caju! Ai, que burro. O certo é (enche a boca de ar) adstringente. É tanino. Uma dica: não é abrindo o seu glossário cervejeiro que você irá cativar um novo bebedor. É preciso ter tato, saber utilizar as palavras certas e nunca, nunca, maldiga a Brahma do colega. É prepotentemente deselegante.
Nessa mesma onda, ocorre um outro fenômeno igualmente enjoado: os cursos e mini-cursos sobre cerveja viraram, hoje em dia, uma bela desculpa para encher a cara. O conhecimento fica em segundo plano. E isso não é uma suposição: infelizmente eu pude observar na prática que, a não ocorrência da cerveja, por exemplo, no intervalo de um curso, faz com que não valha a pena fazê-lo. Parece que o cervejeiro fora enganado, ultrajado ou vilipendiado no momento em que lhe negam a bebida. E o conhecimento? "Que se dane! Eu quero é aproveitar os bons momentos com os meus confrades. Depois eu leio um livro que fala sobre isso aí.". É triste e é verdade.
Após as palavras acima proferidas, pode (e quase certeza que haverá), uma inversão de valores: o chato serei eu. Porque toda hora é hora de beber. É apenas mais uma constatação que aquela velha frase que você ouviu em uma das primeiras vezes que tomou uma cerveja diferente não passa de mera hipocrisia: Beba menos, beba melhor. Na verdade, você bebe o quanto o seu corpo e o seu bolso aguentarem. A prática cervejeira acima mencionada hoje em dia é travestida de churrascão. Porque beber 1 ou 2 cervejas é coisa de quem não entende nada, não é mesmo?
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