Eu gosto de olhar pra trás. É muito bom para se fazer um comparativo com o presente. Quando me internei na Levedo, lá em 2011, fiquei fascinado com as cervejas belgas. A Levedo é grande responsável pela minha paixão pela escola belga. Eu tinha noção que existia alguma coisa ali na Inglaterra; sabia da tradição alemã e já havia ouvido algo sobre cerveja nos EUA. Da mesma forma, sabia que algo estava acontecendo no Brasil. Mas o que eu queria mesmo saber era da Bélgica. A escola belga, pra mim, à época, era sinônimo de excelência e superioridade cervejeira. As melhores cervejas do mundo? Trapistas, obviamente. Tomava incansavelmente Orval, Westmalle, Chimay, Achel, Rochefort e eventualmente La Trappe. Sim, eu sonhava todas as noites com um cálice de Westvleteren 12; nem lembrava que havia mais outros dois rótulos do mosteiro. Eu queria ela. Já era a melhor do mundo sem nem mesmo tê-la provado. Não precisei ir à Bélgica para prová-la. Alguém trouxe de lá e vendeu num desses sites de compra online. Não vou falar o preço indecente que paguei na época. Anos depois, em 2013, achei os três rótulos da Westvleteren numa lojinha em Bruges a um preço bem camarada. E vos digo uma coisa: a Westvleteren 6 e 8 são injustamente esquecidas em face do hype da 12. Se um dia você tiver oportunidade, experimente todas. Não se guarde apenas para a 12.
![]() |
| Westvleteren 6 |
Um fato curioso: o consagrado livro do Garet Oliver "A Mesa do Mestre-Cervejeiro" datado de 2003, dedica alguma de suas páginas para falar das cervejas trapistas. E, naquela época, o supra-sumo das belgas feitas pelos monges era, pasmem, a Rochefort. Claro que ele fala da dificuldade de se conseguir uma garrafa de Westvleteren (venda somente na porta do mosteiro ou no café em frente a ele; quantidade limitada de garrafas; e agendamento da visita a fim de efetuar a compra). Todavia, a grande procurada era, deveras a Rochefort 10. Curiosidade dois: a Westmalle usa a mesma levedura da Westvleteren. Portanto, fique atento para isso da próxima vez que degustá-la(s).
Deixando a Bélgica um pouco de lado, pude começar a enxergar a excelência das outras escolas cervejeiras. Consegui observar o esmero com que as cervejas britânicas são produzidas - com uma qualidade e padronização de dar inveja a todos. Se, por exemplo, você está atrás de uma Barley Wine, não há dúvidas de que as melhores são as britânicas. American Barleywine Style até que são gostosinhas, mas a lascívia por lúpulos da escola estadunidense estraga qualquer chance de termos uma neste estilo que chegue perto das britânicas. A comparação chega a dar pena. Excluem-se, aqui, as Barley Wines da BrewDog. Apesar de fabricadas na Escócia, seguem a linha estadunidense. Portanto, o resultado é uma breja onde o malte, que deveria ser protagonista, é esmagado por uma carga absurdamente desnecessária de lúpulo. Enfim, este é um tópico para outro post.
Já falei aqui em outra oportunidade que só consegui absorver a magnitude da tradição cervejeira germânica quando pisei em solo alemão. Pois bem. Nessa efervescência da cultura cervejeira Brasil afora, os estilos alemães acabam esquecidos num canto qualquer - exceto a Heffeweizen, a qual é, para muitos, a porta de entrada neste mundo -, pois não oferecem a complexidade de uma cerveja belga, ou a inovação de uma IPA estadunidense. Isso é injusto. E muito. A escola alemã merece todo o respeito com seus estilos clássicos. Ainda bem que temos no Brasil alguém disposto a manter esta tradição viva. Sim, estou falando da Bamberg. Graças a ela pude ter uma noção da escola alemã e, depois de alguns anos de estudo, respeitar tal escola. E quem disse que uma breja alemã não pode ser complexa? Já experimentou alguma Bock, Doppelbock ou Eisbock DoppelSticke alemã? Ou até mesmo uma Weizenbock? A escola alemã vai muito além da German Pilsner, Helles Lager, Weizen, etc. E, mesmo assim, todos estes estilos mais "delicados", demandam um trabalho e uma dedicação absurdos. É até difícil não falar das brejas alemãs ao entrar no tópico "as melhores cervejas do mundo".
![]() |
| Gaffel Kölsch |
Após divagar sobre as escolas cervejeiras, cada uma com suas caraterísticas e peculiaridades, temos uma reposta sobre qual é a melhor cerveja do mundo? Não. Pra mim, não existe melhor ou pior cerveja. A variedades de cerveja no mundo é gigantesca. Rótulos e mais rótulos surgem todos os dias. O gosto pessoal também influencia muito. É muito difícil você querer enfiar goela abaixo que a Westvleteren 12 é a melhor cerveja do mundo para quem detesta cervejas com predominância de malte e condimentos. A subjetividade aqui, predomina. Não existe uma melhor cerveja do mundo. Nem duas. Não caia neste discurso. Uma vez abri uma garrafa de Corona e mentalizei "A melhor cerveja do mundo é a que eu estou tomando". Não deu certo. Me senti patético. Cada um tem o seu "Top 10" (O meu está no rodapé da página). Isso é iminente. Faça o seu e seja feliz. Agora, lembre-se: é a sua cerveja favorita, e não a melhor do mundo.


Parabéns Gabriel pelo blog enriquecedor, que aborda de forma tão didática diversos debates presentes nas mesas acervianas. Abraço.
ResponderExcluir