quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Cada ocasião pede a sua cerveja - ou o milho nosso de cada dia

Cerveja está na moda. E antes que alguém fale que isto é uma crítica (que cerveja "especial" é mainstream ou hype), na verdade é algo muito bom. Cada vez mais pessoas se interessam pela cerveja além das gôndolas de supermercado - logo após terem uma experiência inesquecível com algum rótulo, digamos, diferente. Realmente é algo revolucionário nas nossas vidas. Lembro que, lá pelos idos de 2007, comprei um kit com 1 Erdinger Weiß e uma Dunkelweiß - além do copo que veio no pacote. A minha vida havia mudado.

A sucessão de rótulos no meu cotidiano veio com naturalidade. Hoje em dia, cá estou, respirando cerveja todo santo dia. E, claro, você aprende, empiricamente ou com muito estudo e dedicação, quais cervejas são tecnicamente boas ou ruins. Veja bem: tecnicamente; nada tem a ver com gosto ou opinião pessoal. Não se pode deixar faltar o bom senso. E mais: não se pode dizer que uma American Adjunct Lager é tecnicamente inferior a, por exemplo, uma Russian Imperial Stout ou uma Belgian Dubbel. Na minha humilde opinião, a técnica (ou a falta dela) se aplica intrinsecamente ao seu estilo -  jamais entre eles -, variando apenas com o padrão que você escolher para tal (seja o BJCP ou BA).

Pois bem. Aos já iniciados no universo da cerveja, e principalmente àqueles que acompanham nas redes sociais diversas páginas ligadas ao assunto, volta e meia se deparam com ataques às chamadas "cervejas de milho/arroz". Quando não, são chamadas de suco de milho, ou são associadas à uma garrafinha cheia de milho e arroz em comparação com uma cheia de lúpulo - como se o lúpulo deixasse a cerveja ótima.
Hoje em dia ocorre algo que, sinceramente, me deixa triste: comparações esdrúxulas entre cervejas e a falta de bom senso. Com a ascensão das cervejas ditas especiais, o ataque às cervejas populares se tornou recorrente entre entusiastas da cerveja, homebrewers e, pasmem, entre Beer Sommeliers. É praticamente uma heresia falar da InBev dentro de uma ACervA, já que, fui informado que Brahma & cia não são cervejas de verdade. O argumento predominante: a "cervejinha" é simples demais; é fácil de fazer; é de baixa qualidade; utiliza insumos de baixíssima qualidade (eu concordo com este último). Aparentemente a qualidade é medida pela potência do dry hopping.

Trocando em miúdos, é muito delicado acusar uma cerveja de possuir baixa qualidade, ou que os profissionais que as fazem não têm competência para produzir algo melhor. Será que é muito fácil produzir uma cerveja delicadíssima como uma American Adjunct Lager ou uma Premium Lager sem níveis aparentes de Diacetil ou D.M.S? Será que é facílimo produzir mil vezes uma cerveja exatamente igual? Ou será que é mais fácil produzir uma American Pale Ale qualquer com uma tonelada de dry hopping, onde será praticamente impossível de se verificar quaisquer off-flavors? Muitas perguntas devem ser respondidas antes de se tornar o paladino da "cerveja de verdade". Claro que num mundo ideal, nós encontraríamos, num dia ensolarado, uma Bamberg Camila Camila ou uma Pilsner Urquell em qualquer lugar a um preço justo. Infelizmente o Brasil ainda sofre com altos impostos para a breja.

Como o título sugere, cada cerveja tem a sua ocasião, por mais que ela seja "fraca" ou "de baixa qualidade". Experimente tomar uma Barleywine de 3 anos de idade ou qualquer coisa maturada por 6 meses em barris de Bourbon numa praia; você acabará com o seu e o meu dia (se eu souber disso). Agora experimente tomar uma Devassa Bem Loura ou uma Cerpa Draft nas mesmas circunstâncias. Não se prive de socializar com os seus amigos que, por algum motivo, ainda não embarcaram na mesma onda que você, somente porque não tem aquela cerveja que mais lhe agrada - ou qualquer outra coisa que você considere puro malte (isto, inclusive, será objeto de outro texto). Antes de achincalhar a cerveja, devemos analisar se ela possui, deveras, disfunções sensoriais - que impossibilitam o seu usufruto -, ou se ela apenas não atende às nossas expectativas. Não sou defensor de empresa A ou B. E sim, estou ciente que grande parte do milho utilizado na produção das American Adjunct Lagers é transgênico (logo, pode ser prejudicial à saúde); também sei como as gigantes do mercado cervejeiro massacram as microcervejarias com lobbys e doações para políticos; igualmente sei do problema que gerará a não inclusão das microcervejarias no Simples Nacional. Esta é outra discussão - mais profunda e seguindo uma vertente bem diferente destes escritos. Dessa forma, o fato de você só tomar cervejas que VOCÊ julga superiores não o faz mais ou menos entendedor que o feirante que só toma Glacial ou Brahma Fresh. Cuidado com a soberba cervejeira.

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