quinta-feira, 2 de abril de 2015

Teste cego #1

Rankings sempre me intrigaram. Seja pela subjetividade, seja por qualquer outro aspecto intrínseco à natureza humana. Nas nada saudosas aulas de Direito, lembro da figura do Juiz - e a sua imparcialidade. Sempre achei dificílimo, em momentos de julgamento, alguém olhar para um caso de maneira imparcial, livre de qualquer pré-conceito (e não preconceito) pessoal, construído ao longo dos anos. Se fosse diferente, não teríamos Varas conhecidas por seguir determinada corrente doutrinária ou jurisprudencial. Enfim, é um assunto chato pra caramba. Bora falar de cerveja.

Em muitos rankings de cerveja, a cerveja trapista Westvleteren 12 figura no top 10 (inclusive no meu, o qual está sob revisão). Paralelo a isso, existe todo um mito por trás dela em razão da dificuldade de achá-la (mesmo na Bélgica). Para comprá-la baratíssima, é preciso ir ao mosteiro de St. Sixtus, reservar horário e comprar um máximo de 24 unidades; ou tomá-la diretamente no bar em frente ao mosteiro. Tive a sorte de encontrar algumas unidades em Bruges - porém, com um preço bem elevado. E sim, a cerveja é maravilhosa. Mas, será ela a melhor do mundo?


Bom, não estou aqui para contar a história da Westvleteren, nem da St. Bernardus, pois já existem inúmeras matérias e postagens em blogs sobre o assunto. Aqui, importa saber que, por algum tempo, as cervejas da Westvleteren foram produzidas na fábrica da St. Bernardus. E, eles juram de pé junto que a sua quadruppel, a St. Bernardus 12 possui receita idêntica à Westvleteren 12. Alguns, inclusive, chamam a primeira de prima pobre da segunda. Comparação injusta. Não sei afirmar se essa fama se estende ao mundo todo. Porém, é interessante trazer à tona uma curiosidade: no célebre livro do Garret Oliver, chamado A Mesa do Mestre Cervejeiro (salvo engano, datado de 2004), a menção à Westvleteren 12 é breve e nada mais. Não há nenhum "mito" pairando sobre ela; em contrapartida, as linhas dedicadas à Trappistes Rochefort 10 são de emocionar qualquer entusiasta da cerveja. A dificuldade, à época, de se conseguir uma garrafinha dela beira o misticismo em volta da Westvleteren 12. Hoje em dia é bem fácil de se encontrar um Rochefort 10 a um preço razoável. Portanto, decidi incluí-la no teste cego - ainda mais porque é uma cerveja que me agrada bastante e, além disso, se encaixa no estilo.

A idéia do teste cego não é identificar qual é qual, e sim inferir qual delas, sem preconceito de rótulo ou de fama, agradaria mais. Em relação as escolhas, tem-se o seguinte: a Westvleteren 12 e St. Bernardus 12 pela sua notória semelhança - e pela certeza que esta última dá de utilizar a mesma receita - e a Rochefort 10 pelo seu padrão de excelência notório, por se encaixar no mesmo estilo das duas anterior e por outrora possuir o mito que, atualmente, ainda cerca a Westvleteren. A primeira é datada de 2013, enquanto que segunda e a terceira, foram fabricadas em 2014.


Todas as três foram servidas simultaneamente, sem denunciar o rótulo, apenas com etiquetas numeradas de 1 a 3; não se sabia, outrossim, a ordem das cervejas. Conforme dito anteriormente, não se almejava adivinhar os rótulos, e sim saber qual iria mostrar melhores características sensoriais cegamente. O resultado foi surpreendente e nos deu duas vertentes distintas.

AMOSTRA #1: O aroma se mostrou com notas intensas de ameixa, passas, chocolate ao leite, castanhas (nozes e um pouco de castanha-do-pará), Vinho do Porto, Erva-doce, anis e azeitonas chilenas. O sabor acompanha bastante o aroma, principalmente nas notas doces, deixando a picância das ervas e da azeitona para segundo plano. O amargor é contido. Este exemplar mostrou notas suaves metálicas - sinal de envelhecimento da cerveja. Apesar desse pequeno detalhe, foi a cerveja de melhor sabor. O corpo pesado e o álcool funcionaram muito bem com as notas condimentadas;

AMOSTRA #2: O aroma predominante é de maltes, caramelo e castanhas, lembrando muito um aroma de uma Dubbel belga, porém em maior intensidade. As notas de Vinho do Porto estavam presentes, só que mais discretas que na primeira amostra. Aqui tem-se uma leve sugestão de madeira, levando à notas de canela. O chocolate lembra mais um meio amargo, porém suave. Os aromas condimentados são bem mais contidos. O amargor do lúpulo funciona perfeitamente com o dulçor do malte; mostrou-se a mais balanceada e com melhor aroma. Também se mostrou presente um leve Metálico;

AMOSTRA #3: O dulçor do malte e as notas vínicas apresentaram-se mais fortes nesse exemplar. As notas maltadas e doces se assemelharam muito às duas anteriores, contudo, em menor intensidade. O aroma foi tomado por notas de ameixas e passas; o paladar seguiu o aroma, com a diferença que o amargor do lúpulo estava mais escondido, comprometendo levemente o balanço, mas nada de exagerado.

Ao final, numa escala de 0 a 10, a Amostra #1 recebeu nota 9; a Amostra #2 recebeu nota 9,5; e a Amostra #3 recebeu nota 8. Tem algum palpite pra vencedora? O resultado é interessante:

AMOSTRA #1: Westvleteren 12 (9,0pt)
AMOSTRA #2: St. Bernardus 12 (9,5pt) [VENCEDORA]
AMOSTRA #3: Trappistes Rochefort 10 (8,0 pt)

Com esse resultado, temos que analisar alguns aspectos: as três sofreram a mesma viagem, seguindo o itinerário Bélgica-Brasil, com algumas diferenças consideráveis: a Westvleteren eu comprei em 2013, numa lojinha em Bruges. E ela veio na minha mala; passou esse tempo todo sob os meus cuidados, na minha adega particular. As outras duas eu comprei ao mesmo tempo, no dutyfree do Aeroporto de Belém. Provavelmente elas viajaram mais que a Westvleteren até chegar em Belém, porém eram 1 ano mais novas (fabricadas em 2014). Imagino que realizar a mesma experiência na Bélgica pode nos gerar resultado diferente, pois as caraterísticas sensoriais podem mudar.

Vai uma St. Bernardus 12? Saúde!

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