domingo, 29 de março de 2015

A Metamorfose

Certa manhã, ao acordar de sonhos intranquilos, percebi que havia me metamorfoseado. Aliás, não tenho muita certeza se quem mudou fora eu, ou o ambiente no qual habitara. Já não conseguia decifrar se era eu o grotesco ou se era o ambiente que me dava asco. Foram dois anos de sonhos, ideologias e ideais. Todos frustrados. Todos jogados ao vento. Talvez Nero nos salvasse. Talvez.

Quando fundamos a ACervA Paraense, entre Junho e Julho de 2013, Associação esta que teve sua gênesis nas reuniões na saudosa Levedo - recinto onde muitos de nós aprendemos a tomar cerveja e a fazer amigos -, não imaginávamos as dimensões que ela tomaria. Na verdade, tínhamos uma expectativa de ter pessoas boas ao nosso lado, com o fulcro de fomentar a cultura cervejeira dentro do estado do Pará e, por que não, tomar um copo ou dois. Antes disso, eu sequer conhecia essas pessoas, as quais algumas eu considero amigas de verdade. Mas nada nessa vida é estático.

Muitos dos cervejeiros caseiros iniciam a atividade milenar como um hobby - uma válvula de escape para seus anseios. É um trabalho de paciência. Muitos são pais, mães, advogados, engenheiros, empresários, etc. E fazer cerveja é um hobby caro. Os insumos, na maioria das vezes são importados; e temos um agravante: o frete para Belém sai bastante salgado. Mas, tudo pela cerveja. Eu segui por um rumo diferente: ao perceber o quão caro sairia tal hobby, decidi focar meus investimentos na parte teórica; em cursos, viagens, pesquisas in loco de cervejas. É muito difícil fazer ambas as coisas (a não ser que você tenha dinheiro de sobra).

Falando em dinheiro, eis um dos fatores decisivos para a mudança de foco da ACervA. Obviamente, ela é uma Associação sem fins lucrativos - ainda que os membros paguem anuidade. Todavia, tem-se um dinheiro em caixa para os eventos, onde todos saem beneficiados. Há, ainda, as brassagens abertas que a ACervA promove - totalmente gratuitas. Os eventos que não são promovidos diretamente pela Associação - e sim feita com o apoio da mesma -, com toda certeza resultam num dispêndio financeiro daqueles interessados pelos cursos - por exemplo, o curso de leveduras e de off-flavors. Porém, aqui, falamos de profissionais que dedicam suas vidas à cerveja e que gastaram pequenas fortunas na sua qualificação profissional para tal. Não se fala aqui de nenhum aproveitador de momento; aqui não se fala de pessoas que querem se locupletar do movimento cervejeiro para lucrar. Até porque assistir a um curso de R$ 500,00 não faz de você mestre-cervejeiro, tampouco lhe dá aval para ministrar curso meia-boca. É isso mesmo. Charlatões passam a se aproveitar da boa vontade de muitos inocentes que querem aprender mais sobre este belo Universo, porém não tem o tato necessário pare chegar nas pessoas corretas, ilibadas, que prezam pela moral e pela ética.

Outro aspecto negativo ocorre quando o hobby sobe à cabeça do homebrewer e este se intitula O cervejeiro da galera. Pra ser bem sincero: digamos que, das 100 cervejas caseiras que provei em Belém, 2 estavam muito boas, 8 estavam boas, 10 estavam razoáveis e o resto estavam com mais defeitos que qualidades. Desculpem, mas eu treinei pra isso, para analisar uma cerveja. E, se ela está ruim, a culpa não é minha. O problema é que sempre aparece um mau perdedor pra falar que é fácil falar mal da cerveja alheia; difícil é fazer. Bom, a vida é feita de escolhas. Eu fiz a minha. Se alguém optou por outro caminho, e mesmo assim não tem competência para trilhar o seu itinerário, a culpa não é de ninguém. São muitos Rúdins pra pouca Revolução.

Eis que chega o pior: mesmo sabendo (ou não) que a cerveja é ruim, por algum motivo - imagino que financeiro - a pessoa decide por comercializá-la. Veja bem, a pessoa assistiu 2 ou 3 cursos, tomou umas 300 cervejas diferentes (sendo que 100 do mesmo estilo), fez meia dúzia de cervejas em casa e agora julga-se competente para fabricar uma cerveja artesanal, nos moldes de homebrewer. Isso não é apenas um desrespeito com o consumidor (o qual será enganado ao comprar um produto sem qualidade industrial), como desrespeito com alguns que vejo batalharem há anos para abrir microcervejarias ou brewpubs dentro da lei, conforme manda a cartilha. Aliás, esse é um grande problema no Brasil: a carência de legislação para, em situações como esta, enquadrar malfeitores como os descritos acima; pessoas que prestam um desserviço para a cultura cervejeira local. Tudo em nome do dinheiro.

As trocas de favores, tapinhas nas costas e benesses se tornaram regra neste meio. A falta de ética impera, desde os Sommeliers que só falam bem em seus blogs das cervejas que ganham, dos lobbys que fazem em seus livros para cervejas publicamente conhecidas como ruins (ainda que gosto seja algo subetivo), ao homebrewer que quer lucrar com aquela líquido intragável. Porque alguém vai ter que pagar pelo meu hobby caríssimo, não é mesmo?

A ACervA não tem poderes nenhum sobre tudo isso que falei. Ela tem dever tão-somente de orientar quando achar necessário. Ocorre que, quando a orientação é feita, a falta de ética e de moral vem à tona. Não vejo motivos, pois, para continuar fazendo parte de uma instituição onde alguns dos seus membros achem normal enganar pessoas leigas no assunto - seja com cerveja ruim, seja com informações equivocadas, seja com essa falta de ética que já parece regra em Belém. Seguirei meu rumo, fazendo o que acho correto: ensinando cerveja, bebendo cerveja. Agora, sozinho. Estarei longe quando a Associação se tornar insustentável pela ganância de poucos. Todos pagarão. Infelizmente já não posso mais habitar esta pocilga em que vivemos. Saúde.






terça-feira, 17 de março de 2015

A cerveja do dono e o dono da cerveja

A arte de fazer cerveja. Esta eu não domino. Desde que me interessei pelo assunto, me encantei pela parte história e sensorial da cerveja. Sempre busquei a origem dos estilos e sua evolução ao longo do tempo. Obviamente me interessei pelos ingredientes: desde a água de Burton on Trent à cepa de leveduras que a Het Anker guarda a sete chaves para a produção da Van de Keizer Blauw. Sempre procurei saber quais especiarias os belgas utilizavam nas suas receitas. Confesso que já passei horas lendo receitas. Agora, pô-las em prática nunca foi o meu foco. Sempre preferi focar meus investimentos em outras áreas da Zitologia (mas prometo que até o fim do ano isso mudará).

Tive a sorte de acompanhar muitos amigos, colegas e conhecidos no surgimento e crescimento da ACervA Paraense e de todo o movimento cervejeiro que, atualmente, efervesce no Pará; hoje em dia já são muitos os que se interessam pela cerveja - e são muitos os outros que desejam produzi-la. Nunca me iludi achando que eu poderia fazer uma cerveja, de fato, boa. Eu admiro receitas que levaram décadas; ou séculos para se consagrarem. Também admiro quem se esforça para fazer uma cerveja boa no equipamento de homebrewer. É necessária uma força de vontade sem igual, daquela que só um cervejeiro possui.

Já cheguei a participar de 4 ou 5 processos de produção de cerveja. É divertido. Mas nunca tive o tesão que muitos dos meus colegas possuem. Talvez por saber que eu ainda não possuo conhecimento suficiente para produzir uma cerveja que me interesse e que me faça suspirar. Não estou apontando o dedo para A ou B - apenas não estou sendo hipócrita. Tampouco estou desmerecendo todo o trabalho que homebrewers fazem à frente do seu fogão. Apenas voltei de Blumenau com uma perspectiva diferente.

Já chegaram a questionar se existe uma Escola Brasileira de cerveja (tais quais as Alemãs, Inglesas, Franco-Belga e Estadunidense). Dá até pena de responder. É claro que não. Sem dúvidas, a criatividade do brasileiro é fantástica - a quantidade de ingredientes que este enorme país possui é inigualável. Dessa forma, os resultados que podem sair com as combinações é praticamente infinito. Acontece que, hoje em dia, parece que é regra colocar um ingrediente estapafúrdio numa cerveja caseira - ou mesmo artesanal. A busca incessante por ser pioneiro em determinado estilo, ao invés de colocar o movimento cervejeiro para frente, na verdade, o puxa para trás. Eu tive um professor em Chicago o qual aprendi a respeitar, pois as palavras que ele me disse não faziam sentido à época. Contudo, quanto mais eu estudei, e quanto mais eu busquei o conhecimento cervejeiro, eu vi que ele estava certo. Falo aqui do Jared Rouben: ex Mestre-cervejeiro da Goose Island e atual proprietário e Mestre-cervejeiro da Moody Tongue. Antes de viajar para lá, havia participado de uma brassagem de uma witbier com adição de acerola - fruta a qual eu tive dificuldade para traduzir. Ele, calmamente, me perguntou: por que havia sido adicionada uma fruta numa receita que, além dos ingredientes tradicionais, levara somente coentro e casca de laranja? Antes de eu tentar responder (claro que permaneci calado), perguntou novamente: você já fez uma receita normal de witbier, sem inventar nada?  Fiquei com cara de parabéns. Segundo ele, o homebrewer tem que errar pelo menos 10 vezes uma receita padrão antes de tentar inovar. É preciso dominar o estilo antes de tentar interpretá-lo de maneira diferente.

Retornei do Festival Brasileiro da Cerveja com uma visão preocupante: hoje em dia é difícil tomar uma cerveja brasileira com receitas tradicionais. Pode espernear e falar "Ah, mas esse é o diferencial do Brasil. A criatividade"? Pode. Acontece que essa criatividade deveria estar a favor do cervejeiro. As melhores cervejas que tive o prazer de degustar no Festival, na sua maioria, eram de cervejeiros experientes que envelheceram suas cervejas em barris de Amburana, Carvalho Francês, Carvalho Americano, Castanheira, etc. Palmas à Bodebrown, Wäls, DUM e à Morada & Cia. Etílica pelo excelente trabalho desenvolvido. Imagino que tenha tomado tempo, espaço e paciência para se chegar num resultado como esse (a Flanders Red Ale da Morada, Gasoline Sour, está simplesmente sensacional). E mais palmas à Cervejaria Palta,  que fez cervejas maravilhosas sem adicionar frutas exóticas ou raízes demoníacas nas suas receitas. Eles têm uma Vienna Lager linda. O mesmo vale pra Abadessa: Pilsner, Helles e Dortmunder Export muito boas. Nenhuma com fruta. Muito menos capim; ou mel; ou jaca; ou ingá; ou tucumã; ou doce de tamarindo da vovó. Esses caras me fazem acreditar que existem cervejeiros de competência inquestionável neste país.

O duro do Festival foi ter que lidar com as Sessions IPA's. E com as Saisons. Quem me conhece sabe do meu fascínio por Saison. Logo, neste aspecto, as cervejas do Festival foram decepcionantes. Quase todas as Saisons que tomei estavam ruins - com exceção da Saison de Caju envelhecida em barril de vinho brando da Tupiniquim/Stillwater. Outro aspecto interessante foi ver a quantidade de Witbiers produzidas pelas cervejarias. No entanto, das 15 que me deparei, apenas 2 ou 3 seguiam a receita à risca. Inclusive, teve uma com framboesa, que nem casca de laranja e coentro levava na receita. Mas quem sou eu pra falar algo, né? Deixa o brasileiro e sua criatividade invejável… Pelo menos segue a mesma lógica: aqui em Belém tive o prazer de tomar cervejas muito boas feitas pelos colegas da ACervA. Acontece que, as únicas cervejas realmente boas foram aquelas que fugiram da inventividade demasiada: Amber Ales sem nada de "novo", Witbiers deliciosas, Heffeweizens com pegada da cidade de Bamberg, uma Vienna Lager que eu tomei no carnaval e me apaixonei, etc. Agora, quando se tentou inovar com ingredientes estranhos às receitas-base, o resultado quase sempre foi desastroso. Desculpa, amigos. Mas essa é a verdade.



Ainda que, por hora, não tenha pretensões de fazer cerveja no fogão de casa, comprei o novo livro do Randy Mosher: Mastering Homebrew. Confesso que, até então, está sendo uma leitura gostosíssima. Recomendo àqueles que não tenham dificuldade com a leitura em inglês. Muito do que aprendi sobre cerveja eu devo ao trabalho do Randy, como professor e como escritor. E nesse livro ele nos ensina bem a utilização de todos os ingredientes na produção da cerveja. Tem uma pequena parte do livro dedicada ao Brasil. É bem legal. Acho que nada mais justo que ouvir (ou ler) as palavras do Mosher. Afinal de contas, ainda não sabemos nada sobre cerveja. Saúde.

P.S. Os guias de estilos do BJCP e BA são meramente sugestivos (caso você não almeje entrar em um concurso). Você é dono da sua própria cerveja. A sua imaginação pode ir longe. Ninguém está aqui para lhe parar. Assim como ninguém vai dar tapinha nas costas dizendo que a cerveja tá boa. Ou vai? Complicado.