Imagino que o sonho de todo mundo é poder conciliar trabalho e lazer; ou, pelo menos, estabelecer um equilíbrio nesta relação. Obviamente, quando você tem como lazer a apreciação de cervejas, esse sonho se torna mais convidativo. Flertar com a possibilidade de trabalhar com cerveja é algo espetacular. Lembro do período que passe delirando com esta hipótese. Basta ter força de vontade e coragem para nadar contra a maré. Seguir um sonho é difícil. Porém, uma vez conquistado, o prazer é imensurável.
Ao lembrar do início desta aventura, quando você ainda é um semi-virgem no universo cervejeiro, a fascinação e o deslumbre ocorrem praticamente todo dia. Cada gole de uma belga - escola até então desconhecida pelo leigo - se torna uma experiência inconfundível. Numa fração de segundos, a Delirium Tremens se torna a melhor bebida do mundo; o Delirium Café se torna sinônimo de paraíso; Bruxelas, um sonho distante; os mosteiros trapistas, quase que uma utopia. Beber Skol novamente? Um futuro distópico.
O mais legal, após entrar nesta nova onda, é encontrar amigos e colegas que usufruam do mesmo prazer que você. Grupos cervejeiros surgem - confrarias se tornam realidades mais próximas. Criam-se as AcervAs. E a discussão de mesa de bar, melhor aproveitada com informações sobre cervejas novas e experiências individuais compartilhadas. Neste momento, parece que o sonho começa a se tornar realidade. Todas as pessoas que fazem parte deste novo círculo são umas mais interessantes que as outras. Amizades emergem; camaradagens aparecem a cada garrafa de 750ml dividida nos bares afora. Aparentemente, todo mundo inserido neste mundo é uma pessoa para se levar pro resto da vida. Olhando "de fora", todo camarada que entorna um goblet de Rochefort é digno de ser levado a sério. O mundo da cerveja é perfeito. Será?
Após alguns anos dentro deste novo mundo - mesmo como apenas um mero entusiasta da bebida da Ninkasi - você começa a enxergar detalhes até então desconhecidos, quiçá olvidados inconscientemente pela empolgação e êxtase que outrora te deixaram cegos para defeitos. Os seus heróis cervejeiros começam a cair; sua admiração se torna mais seletiva; sua decepção com o mundo é iminente. Aqueles autores de livros que você venerava, uma hora são dilacerados com histórias cabeludas que você jamais julgara possível num meio cheio de boas-praça. Afinal, o que está acontecendo? Cadê aquelas pessoas fascinantes? Na verdade, é você que não está mais extasiado, inebriado com o álcool engarrafado. Você cresceu.
O fator definitivo para o famigerado choque de realidade: ingressar no mercado cervejeiro. Construir uma carreira, um nome dentro deste nicho da Zitologia. Até o parágrafo anterior, lidávamos com as desilusões Brasil afora. Éramos apenas meros espectadores desse duelo de egos. Aquelas discussões inócuas nos fóruns cervejeiros, onde um quer demonstrar que entende mais sobre cerveja que o outro, até então distantes daqui, transformam-se numa dura e patética realidade. O mercado cervejeiro é um mercado como outro qualquer: cheio de profissionais competentes, pessoas sedentas pelo aprendizado e dispostas a realizarem um trabalho satisfatório. Em contrapartida, existem os oportunistas, que só almejam lucro, sem sequer pensarem na fomentação da cultura cervejeira da cidade onde se encontram. Ocorre que, pretensões perversas como essas não podem aparecer transparentes; necessitam ser travestidas de paixão pela cerveja; de amor ao negócio. Na maioria das vezes, discursos falaciosos e tendenciosos são lançados em meios específicos na tentativa de angariar seguidores para uma história forjada. Recrutar entusiastas novatos é uma tarefa fácil e extremamente importante para quem necessita de cabeças sem vícios a fim de, qual um ferreiro, forjar uma faca. A mesma faca que entra aos poucos, almejando atingir o âmago do universo cervejeiro. E dói. Para quem se esforça há anos, na tentativa incessante de estabelecer novos paradigmas da cerveja dentro do seu estado, uma desconstrução covarde como a que acontece no Pará, dói demais.
Ninguém afirma que a ACervA é a instituição máxima e única da construção da cultura cervejeira dentro de um estado, pois, se formos olhar para fora, alguns estados do Brasil encontram segregações dentro das AcervAs por inúmeros motivos. Mas, posso afirmar com toda a certeza, que o afinco que os membros paraenses têm pela Associação é indiscutível. Existem erros e acertos. Mas, acima de tudo, existe a vontade de crescer e evoluir - a qual é constante. Dentro dela, as pessoas se ajudam e auxiliam uns aos outros, no intuito de que todos cresçam juntos: outro motivo pelo qual mantemos as portas abertas para toda e qualquer pessoa que se interesse pelo assunto. A facilidade de ingressar na ACervA Paraense é impressionante.
Ainda que os benefícios e facilidades acima mencionadas sejam claras e óbvias, muitas vezes a ACervA é apontada como responsável pela segregação (?) dos cervejeiros na capital. Não existe argumento mais falacioso, ridículo e energúmeno que este, visto todo o nosso esforço para angariar a maior quantidade de membros possíveis. Contudo cada um acredita naquilo que lhe for mais conveniente. Assim como muitas histórias surgem naturalmente, algumas outras são fantasiadas e moldadas para parecerem realidade. Panela não é arma de guerra. Cabe a você enxergar a verdade. Para dar-se ao luxo de exibir uma soberba desnecessária, tal qual um galo exibe sua crina, é preciso primeiro crescer, pois pinto não tem crina. Saúde.